Infraestrutura, liquidez e confiança: os pilares para a expansão dos ativos tokenizados
Artigo de opinião, Rubens Neistein, Co-Founder e CIBO da Netspaces
A tokenização de ativos do mundo real (Real World Assets – RWAs) consolidou-se como uma das principais frentes de desenvolvimento do mercado de ativos digitais. Imóveis, recebíveis, títulos privados, commodities e cotas de fundos vêm sendo representados em blockchain com a promessa de tornar mercados tradicionalmente pouco eficientes mais acessíveis, transparentes e líquidos.
O potencial é evidente. Estimativas apontam que, ao longo da próxima década, trilhões de dólares em ativos poderão migrar para infraestruturas digitais. No entanto, a experiência dos últimos anos também mostrou que tokenizar um ativo é apenas o primeiro passo.
A simples emissão de um token não garante que ele represente, de forma segura e eficiente, um direito econômico ou jurídico. Em outras palavras, criar um ativo digital é relativamente simples; construir um mercado sustentável para esse ativo é muito mais complexo.
Para que a tokenização cumpra sua promessa, três elementos precisam caminhar juntos: infraestrutura jurídica, liquidez e confiança. A ausência de qualquer um deles compromete o desenvolvimento do mercado.
Infraestrutura jurídica: quando o token representa mais do que um registro digital
O primeiro desafio é jurídico.
Em muitos projetos, o token funciona apenas como uma representação tecnológica de um ativo cuja titularidade continua dependendo de mecanismos tradicionais. Isso significa que a negociação do token nem sempre corresponde, automaticamente, à transferência dos direitos que ele pretende representar.
No mercado imobiliário, esse desafio é particularmente evidente. A circulação de direitos sobre imóveis envolve registros, contratos, cartórios e diferentes intermediários. Embora a blockchain permita registrar transações de forma rápida e imutável, ela não substitui, por si só, a estrutura jurídica que sustenta esses direitos.
Por isso, o debate atual deixou de ser apenas sobre tecnologia e passou a envolver arquitetura jurídica. O foco está em desenvolver modelos que aproximem, de maneira consistente, o mundo digital da realidade legal dos ativos.
Um exemplo recente é o Regime Patrimonial Especial (eRPE), desenvolvido pela Netspaces. Em vez de concentrar a tokenização na matrícula de cada imóvel, a estrutura vincula os efeitos jurídicos da circulação dos tokens ao contrato social da sociedade proprietária. Assim, determinados atos de disposição dos ativos passam a depender da autorização registrada em blockchain, aproximando a movimentação do token dos efeitos jurídicos correspondentes.
O eRPE foi registrado na Junta Comercial do Rio Grande do Sul, em maio de 2026, e já está operacional. A iniciativa demonstra como a inovação em ativos tokenizados depende não apenas da tecnologia, mas também da construção de modelos jurídicos capazes de conferir segurança e efetividade às operações realizadas em blockchain.
Independentemente do modelo adotado, o ponto central permanece o mesmo: a tokenização só ganha escala quando existe uma infraestrutura capaz de conectar, de forma segura, o ativo físico à sua representação digital.
Liquidez: o verdadeiro valor da tokenização
A liquidez costuma ser apresentada como uma consequência natural da tokenização, mas ela depende da qualidade da infraestrutura construída.
Digitalizar um ativo não significa, automaticamente, criar um mercado para ele. Se a transferência dos direitos continuar sujeita aos mesmos custos, prazos e procedimentos tradicionais, o ganho de eficiência será limitado.
É justamente por isso que iniciativas mais recentes têm buscado simplificar a circulação dos direitos representados pelos tokens. Quando a infraestrutura jurídica reduz etapas intermediárias e permite que a transferência digital produza efeitos práticos sobre o ativo, o custo operacional tende a diminuir e a velocidade das transações aumenta.
Outro aspecto importante é a escalabilidade. Em modelos convencionais, cada ativo pode exigir procedimentos específicos de formalização, o que dificulta a tokenização de grandes carteiras. Estruturas desenhadas para abranger múltiplos ativos sob um mesmo regime jurídico tendem a reduzir os custos de implementação à medida que novos ativos são incorporados, ampliando a viabilidade econômica de projetos em larga escala.
Esse tipo de arquitetura permite que incorporadoras e demais proprietários de grandes portfólios planejem processos de tokenização de forma mais eficiente, reduzindo barreiras operacionais e tornando economicamente mais viável a digitalização de um número maior de ativos.
Em última análise, a liquidez não decorre da blockchain em si, mas da combinação entre tecnologia, segurança jurídica e desenho de mercado.
Confiança: o ativo mais importante
O terceiro pilar talvez seja o mais decisivo.
Mercados financeiros funcionam porque seus participantes confiam que os direitos negociados são legítimos, verificáveis e protegidos por mecanismos claros de governança.
Na economia digital, essa confiança precisa ser construída de forma diferente. Não basta confiar no emissor ou em uma instituição intermediária; é necessário que as regras de funcionamento sejam transparentes e passíveis de verificação por qualquer participante.
É nesse contexto que mecanismos como registros imutáveis em blockchain, contratos inteligentes, trilhas de auditoria e procedimentos de governança ganham importância. Eles permitem reduzir a dependência de validações manuais e aumentam a previsibilidade das operações.
No caso do modelo desenvolvido pela Netspaces, por exemplo, a autorização para determinados atos relacionados aos ativos pode ser verificada diretamente na blockchain, criando uma camada adicional de transparência sobre a operação. Além disso, a estrutura prevê mecanismos de proteção, como a possibilidade de suspensão cautelar da movimentação dos tokens diante de indícios de fraude ou comprometimento de chaves privadas, reforçando a segurança operacional da plataforma.
Mais do que uma característica tecnológica, trata-se de uma forma de fortalecer a confiança na infraestrutura que sustenta os ativos tokenizados.
O futuro dos RWAs passa pela integração entre tecnologia e direito
O avanço da tokenização não dependerá apenas da capacidade de emitir novos ativos digitais. O verdadeiro diferencial estará na qualidade das estruturas que lhes dão sustentação.
Projetos que conseguirem integrar tecnologia, segurança jurídica e mecanismos de governança terão maior potencial para atrair participantes, gerar liquidez e consolidar mercados eficientes.
Nesse contexto, iniciativas como o eRPE demonstram que a inovação não está apenas na blockchain, mas também na construção de modelos jurídicos capazes de dialogar com essa tecnologia. Esse movimento evidencia um ponto importante para todo o ecossistema de ativos digitais: o futuro dos RWAs será determinado menos pelo número de tokens emitidos e mais pela solidez da infraestrutura que lhes confere significado econômico e jurídico.
A tokenização representa uma oportunidade de modernização dos mercados de capitais e de ativos reais, mas seu sucesso dependerá da capacidade de integrar inovação tecnológica, segurança jurídica e confiança institucional. Quando esses três pilares evoluem de forma coordenada, a blockchain deixa de ser apenas uma tecnologia de registro e passa a funcionar como uma infraestrutura efetiva para novos modelos de negócios e de circulação de riqueza.


