Stablecoins: a nova infraestrutura financeira global já está em operação

Artigo de opinião, João Canhada, fundador da Foxbit

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Artigo de opinião, João Canhada, fundador da Foxbit

Leitura de 4 min-05/06/2026, 07:30
Categorias: Tecnologia
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Durante muitos anos, as stablecoins foram tratadas como um tema restrito ao universo das criptomoedas. Eram vistas principalmente como instrumentos utilizados por traders para movimentar recursos entre exchanges ou reduzir exposição à volatilidade dos criptoativos.

Essa visão já não reflete a realidade.

Nos últimos anos, as stablecoins deixaram de ser apenas um ativo virtual para se tornarem uma das infraestruturas financeiras mais relevantes em desenvolvimento no mundo. Enquanto parte do mercado ainda debate seu potencial, empresas, instituições financeiras e provedores de tecnologia já utilizam essas estruturas para movimentar recursos globalmente, realizar pagamentos internacionais e gerenciar liquidez com mais eficiência.

A transformação acontece porque as stablecoins resolvem um problema antigo: a complexidade da movimentação internacional de recursos.

Apesar de toda a evolução tecnológica dos últimos anos, uma parcela significativa das operações financeiras globais ainda depende de estruturas construídas há décadas. Em muitos casos, uma transferência internacional continua passando por múltiplos intermediários, diferentes instituições financeiras e processos operacionais que elevam custos e aumentam os prazos de liquidação. As stablecoins surgem como uma alternativa capaz de reduzir parte dessas fricções.

Ao utilizar redes blockchain como infraestrutura de liquidação, torna-se possível transferir valor entre diferentes países de forma programável, com maior previsibilidade operacional e menor dependência de intermediários. Não se trata apenas de velocidade. Trata-se de eficiência operacional, transparência e interoperabilidade entre mercados.

O crescimento desse segmento demonstra que o movimento já está em curso. O mercado global de stablecoins já supera US$ 300 bilhões em valor circulante e movimenta trilhões de dólares anualmente. Mais importante do que o tamanho atual é a mudança de perfil dos participantes. O que antes era um mercado predominantemente formado por investidores de criptoativos passou a atrair bancos, fintechs, empresas de pagamentos, gestoras e grandes companhias globais.

Grandes instituições financeiras já anunciaram iniciativas próprias relacionadas a stablecoins e tokenização de depósitos. Ao mesmo tempo, impresas utilizam essas estruturas para reduzir custos em remessas internacionais, otimizar fluxos de caixa e acelerar liquidações entre diferentes países.

Essa mudança também ajuda a explicar por que o debate deixou de ser apenas tecnológico e passou a ser estratégico.

Quando observamos a evolução dos meios de pagamento nos últimos anos, fica evidente que diferentes infraestruturas começam a convergir para um mesmo objetivo: tornar a movimentação de recursos mais eficiente.

O Pix revolucionou os pagamentos domésticos no Brasil ao eliminar barreiras operacionais e permitir transferências instantâneas. As stablecoins, por sua vez, começam a resolver um desafio complementar: a movimentação global de recursos.

Não se trata de tecnologias concorrentes. Na prática, elas tendem a coexistir e se complementar. O Pix conectou o Brasil. As stablecoins ajudam a conectá-lo ao mundo.

O país liderou uma das maiores transformações de pagamentos do mundo com o Pix.

Existe uma oportunidade real de também ocupar posição relevante na próxima geração da infraestrutura financeira global. Mas existe uma analogia ainda mais profunda.

Durante décadas, TED e DOC foram considerados parte natural do sistema financeiro brasileiro. Pareciam insubstituíveis. Então surgiu uma infraestrutura melhor. O Pix não melhorou a TED e o DOC: tornou a lógica dessas estruturas obsoleta para grande parte dos casos de uso. Acredito que, conforme a clareza regulatória se consolida ao redor do mundo, veremos um movimento semelhante na infraestrutura global de movimentação de valor. O Swift não será substituído porque alguém decretou isso. Ele perderá relevância nos casos em que surgir uma infraestrutura mais eficiente, mais programável, mais disponível e menos dependente de intermediários. Foi exatamente o que aconteceu com TED e DOC.

Por isso a discussão deixou de ser tecnológica. Ela é econômica. Quando uma empresa consegue movimentar recursos globalmente com mais rapidez, menor custo, liquidação contínua e menos fricções operacionais, a tendência natural é que essa infraestrutura ganhe espaço.

Outro aspecto fundamental para essa evolução é a regulação. O amadurecimento regulatório observado no Brasil e em outras jurisdições cria um ambiente mais seguro para empresas e instituições financeiras explorarem novas aplicações para ativos virtuais.

A regulação não representa uma barreira para a inovação. Pelo contrário. Ela fornece previsibilidade, segurança jurídica e confiança para que novos modelos possam ser adotados em escala. Historicamente, as tecnologias financeiras que alcançaram maior adoção foram justamente aquelas que conseguiram combinar inovação com segurança regulatória.

Por isso, talvez a principal mudança que estamos observando seja de percepção.

As stablecoins não estão se consolidando apenas como uma categoria de ativo virtual. Elas estão se consolidando como infraestrutura financeira.

A pergunta que o mercado fazia há alguns anos era se as stablecoins conseguiriam ganhar relevância fora do universo cripto. E essa pergunta já foi respondida.

A pergunta relevante agora é outra:

Quais empresas, instituições financeiras e provedores de serviços estarão preparados para operar sobre essa nova infraestrutura global de movimentação de valor?

A adoção já começou. O crescimento dos volumes, o interesse institucional e o avanço regulatório mostram que essa transformação não pertence ao futuro. Ela já está acontecendo.

Talvez a melhor forma de entender esse movimento seja lembrar que as infraestruturas mais bem-sucedidas são justamente aquelas que se tornam invisíveis. Poucas pessoas pensam na tecnologia por trás de uma transferência Pix. Da mesma forma, no futuro, a maioria dos usuários provavelmente não saberá que uma operação internacional foi liquidada por meio de uma stablecoin. E esse será justamente o sinal de que essa infraestrutura atingiu sua maturidade.

O futuro das stablecoins não é se tornarem um novo produto financeiro.

O futuro das stablecoins é se tornarem a infraestrutura invisível sobre a qual os próximos produtos financeiros serão construídos.

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João Canhada

Artigo de opinião, João Canhada, fundador da Foxbit

João Canhada é fundador da Foxbit e empreendedor com atuação relevante no desenvolvimento do mercado brasileiro de criptoativos. À frente de iniciativas voltadas à democratização do acesso ao Bitcoin e a ativos digitais, construiu uma trajetória associada à inovação financeira, à educação sobre criptoeconomia e à aproximação entre tecnologia, investimentos e novos modelos de infraestrutura financeira.