DeCripto e a reorganização necessária: o que muda quando o mercado passa a operar com dados, método e responsabilidade

Artigo de opinião, Ismael José Perpétuo Decol, Sócio e Diretor da Declare Cripto

Foto do autor Ismael José Perpétuo Decol, Sócio e Diretor da Declare Cripto
Ismael José Perpétuo Decol-Conheça o autor

Artigos de opinião, Ismael José Perpétuo Decol, Sócio e Diretor da Declare Cripto.

Leitura de 5 min-06/02/2026, 07:30
Categorias: Tecnologia
Thumbnail do artigo

A DeCripto não cria imposto novo. Também não inaugura um ambiente hostil ao mercado. O que ela faz é algo mais estrutural: substitui improviso por método. O Brasil passa de um regime informacional fragmentado para um padrão de declaração de criptoativos capaz de refletir a complexidade real da criptoeconomia. Não por voluntarismo burocrático, mas porque o próprio mercado cresceu a ponto de exigir organização.

Nos últimos anos, transações com cripto deixaram de ser episódio isolado. Tornaram-se infraestrutura para pagamentos internacionais, proteção cambial, tokenização de ativos, captação privada e uma miríade de aplicações descentralizadas. Esse movimento foi acompanhado por exchanges globais, estruturas de custódia, modelos híbridos de operação e novos instrumentos econômicos. O arcabouço anterior, criado em 2019, simplesmente não acompanhava essa escala.

A Instrução Normativa nº 2.291/2025 fecha essa lacuna. E faz isso de maneira tecnicamente elegante: sem alterar tributação, sem reinventar fato gerador, sem penalizar quem já cumpre suas obrigações. A mudança está no como declarar criptomoedas — não no quanto pagar. O Estado deixa de depender de dados dispersos e passa a receber informações estruturadas, comparáveis e alinhadas ao padrão internacional da OCDE, o Crypto-Asset Reporting Framework (CARF). É coordenação regulatória, não intervenção.

Esse alinhamento traz ganhos evidentes ao país. Ao adotar o CARF, o Brasil amplia interoperabilidade fiscal com outras jurisdições, reduz risco de evasão, melhora a qualidade dos dados usados para formulação de políticas públicas e aumenta a previsibilidade para empresas que operam globalmente. Em setores em rápida expansão, previsibilidade é ativo.

A definição de quem deve reportar também foi atualizada. Exchanges estrangeiras deixam de atuar em zona cinzenta quando mantêm presença econômica relevante no Brasil — seja por publicidade direcionada, domínio .br, aceitação de Pix, parcerias com empresas locais ou manutenção de estrutura operacional no país. A lógica é simples: se a atividade é brasileira na prática, o reporte deve ser brasileiro na forma. Isso reduz assimetria competitiva entre players locais e internacionais e aproxima o ecossistema de um ambiente mais homogêneo.

Para pessoas físicas e jurídicas, o limite mensal de reporte sobe para R$ 35 mil. O ajuste evita sobrecarga desnecessária de pequenos investidores, ao mesmo tempo em que preserva a visibilidade sobre operações materialmente relevantes.

O escopo do reporte também foi ampliado. O mercado mudou, e a norma acompanhou. Além de compras, vendas e permutas, entram agora staking, airdrops, mineração, empréstimos lastreados em cripto e transferências entre carteiras com efeitos econômicos. Tudo isso com granularidade maior — era inevitável. Não se opera um mercado bilionário com dados episódicos.

Mas é importante separar rigor técnico de fantasia fiscal. A DeCripto não estabelece vigilância permanente, nem monitoramento em tempo real. É um regime declaratório, enviado mensalmente, com finalidade fiscal. O que muda não é o peso da supervisão, mas sua qualidade.

Essa qualidade, porém, traz desafios. Empresas precisarão revisar processos internos, atualizar sistemas, aprimorar trilhas de auditoria e lidar com um nível maior de rastreabilidade. Usuários que operam em plataformas globais ou utilizam instrumentos mais sofisticados — como derivativos, yield e estruturas DeFi — precisarão entender melhor suas obrigações. Modernização exige preparo. Não é uma crítica; é uma etapa da maturidade regulatória.

A mensagem chave por trás da implementação da DeCripto aqui é outra: mercados estáveis exigem dados estáveis. A tecnologia continua sendo potência — autonomia, programabilidade, liquidação eficiente — mas potência sem organização gera ruído. E ruído, cedo ou tarde, se transforma em custo para todos os envolvidos.

O Brasil tem a chance de construir um mercado regulado sem sacrificar inovação. A DeCripto é parte dessa construção. Não restringe o que o mercado pode ser. Apenas cria a clareza necessária para que ele continue evoluindo sem carregar legados de desordem.

Quem domina seus dados preserva liberdade. Quem não domina, terceiriza decisões para o acaso — e acaso não é política pública, nem modelo de negócio. A linha que divide o mercado hoje não passa entre quem “gosta” ou “não gosta” de regulação, mas entre quem está preparado para operar em escala e quem ainda trata a criptoeconomia como exceção.

Regulação bem desenhada não é freio. É infraestrutura. A DeCripto insere o Brasil em um ecossistema global de reporte, melhora a capacidade institucional do país e cria condições para que empresas sérias prosperem com segurança, previsibilidade e responsabilidade.

Um mercado que deseja relevância precisa desse tipo de coordenação.

🔹 Quer entender mais sobre criptoeconomia, inovação e regulação? Acesse os conteúdos educativos da ABcripto: ABcripto Educação.

🔹 Saiba mais sobre a Declare Cripto.

Foto do autor Ismael José Perpétuo Decol, Sócio e Diretor da Declare CriptoElemento de Branding da ABcripto
Ismael José Perpétuo Decol

Artigos de opinião, Ismael José Perpétuo Decol, Sócio e Diretor da Declare Cripto.

Advogado, pós-graduado por formação, empresário por vocação, homem de negócios por necessidade, pai de família por um legado de amor, completamente obcecado por conhecimento, aprendizado, progresso pessoal e cimento de transformações sociais. Não aceito que ninguém me apresente uma ideia e minha reposta seja: "não é possível". Sempre há um jeito, nem sempre o que se espera, nem sempre no preço que se espera, nem sempre no prazo que se espera, mas sempre há jeito. Jeito de vencer a burocracia, de inovar nos negócios, de ganhar tempo, de captar aquele recurso para tua empresa/projeto e colocarei toda minha coragem, engenhosidade e conhecimentos para chegarmos a um caminho. Advogado desde 2009 com escritório especializado em direito empresarial, sócio na Declare Cripto - onde também ocupo os cargos de CLO e CRO. Colaborei em Recuperações Judiciais e Tributárias, Fusões e Aquisições, captação de dívida e investimentos. Experiência como Diretor Jurídico em Exchange de Criptoativos.