DeCripto e a reorganização necessária: o que muda quando o mercado passa a operar com dados, método e responsabilidade
Artigo de opinião, Ismael José Perpétuo Decol, Sócio e Diretor da Declare Cripto
A DeCripto não cria imposto novo. Também não inaugura um ambiente hostil ao mercado. O que ela faz é algo mais estrutural: substitui improviso por método. O Brasil passa de um regime informacional fragmentado para um padrão de declaração de criptoativos capaz de refletir a complexidade real da criptoeconomia. Não por voluntarismo burocrático, mas porque o próprio mercado cresceu a ponto de exigir organização.
Nos últimos anos, transações com cripto deixaram de ser episódio isolado. Tornaram-se infraestrutura para pagamentos internacionais, proteção cambial, tokenização de ativos, captação privada e uma miríade de aplicações descentralizadas. Esse movimento foi acompanhado por exchanges globais, estruturas de custódia, modelos híbridos de operação e novos instrumentos econômicos. O arcabouço anterior, criado em 2019, simplesmente não acompanhava essa escala.
A Instrução Normativa nº 2.291/2025 fecha essa lacuna. E faz isso de maneira tecnicamente elegante: sem alterar tributação, sem reinventar fato gerador, sem penalizar quem já cumpre suas obrigações. A mudança está no como declarar criptomoedas — não no quanto pagar. O Estado deixa de depender de dados dispersos e passa a receber informações estruturadas, comparáveis e alinhadas ao padrão internacional da OCDE, o Crypto-Asset Reporting Framework (CARF). É coordenação regulatória, não intervenção.
Esse alinhamento traz ganhos evidentes ao país. Ao adotar o CARF, o Brasil amplia interoperabilidade fiscal com outras jurisdições, reduz risco de evasão, melhora a qualidade dos dados usados para formulação de políticas públicas e aumenta a previsibilidade para empresas que operam globalmente. Em setores em rápida expansão, previsibilidade é ativo.
A definição de quem deve reportar também foi atualizada. Exchanges estrangeiras deixam de atuar em zona cinzenta quando mantêm presença econômica relevante no Brasil — seja por publicidade direcionada, domínio .br, aceitação de Pix, parcerias com empresas locais ou manutenção de estrutura operacional no país. A lógica é simples: se a atividade é brasileira na prática, o reporte deve ser brasileiro na forma. Isso reduz assimetria competitiva entre players locais e internacionais e aproxima o ecossistema de um ambiente mais homogêneo.
Para pessoas físicas e jurídicas, o limite mensal de reporte sobe para R$ 35 mil. O ajuste evita sobrecarga desnecessária de pequenos investidores, ao mesmo tempo em que preserva a visibilidade sobre operações materialmente relevantes.
O escopo do reporte também foi ampliado. O mercado mudou, e a norma acompanhou. Além de compras, vendas e permutas, entram agora staking, airdrops, mineração, empréstimos lastreados em cripto e transferências entre carteiras com efeitos econômicos. Tudo isso com granularidade maior — era inevitável. Não se opera um mercado bilionário com dados episódicos.
Mas é importante separar rigor técnico de fantasia fiscal. A DeCripto não estabelece vigilância permanente, nem monitoramento em tempo real. É um regime declaratório, enviado mensalmente, com finalidade fiscal. O que muda não é o peso da supervisão, mas sua qualidade.
Essa qualidade, porém, traz desafios. Empresas precisarão revisar processos internos, atualizar sistemas, aprimorar trilhas de auditoria e lidar com um nível maior de rastreabilidade. Usuários que operam em plataformas globais ou utilizam instrumentos mais sofisticados — como derivativos, yield e estruturas DeFi — precisarão entender melhor suas obrigações. Modernização exige preparo. Não é uma crítica; é uma etapa da maturidade regulatória.
A mensagem chave por trás da implementação da DeCripto aqui é outra: mercados estáveis exigem dados estáveis. A tecnologia continua sendo potência — autonomia, programabilidade, liquidação eficiente — mas potência sem organização gera ruído. E ruído, cedo ou tarde, se transforma em custo para todos os envolvidos.
O Brasil tem a chance de construir um mercado regulado sem sacrificar inovação. A DeCripto é parte dessa construção. Não restringe o que o mercado pode ser. Apenas cria a clareza necessária para que ele continue evoluindo sem carregar legados de desordem.
Quem domina seus dados preserva liberdade. Quem não domina, terceiriza decisões para o acaso — e acaso não é política pública, nem modelo de negócio. A linha que divide o mercado hoje não passa entre quem “gosta” ou “não gosta” de regulação, mas entre quem está preparado para operar em escala e quem ainda trata a criptoeconomia como exceção.
Regulação bem desenhada não é freio. É infraestrutura. A DeCripto insere o Brasil em um ecossistema global de reporte, melhora a capacidade institucional do país e cria condições para que empresas sérias prosperem com segurança, previsibilidade e responsabilidade.
Um mercado que deseja relevância precisa desse tipo de coordenação.
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