Monitoramento de PLD/FT no mercado financeiro e cripto: convergência, desafios e evolução tecnológica
Artigo de opinião, Manuel Bermejo Fletes, Head de Compliance da Crypto.com
Nos últimos anos, o monitoramento de prevenção à lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo (PLD/FT) deixou de ser apenas uma obrigação regulatória para se tornar um dos principais pilares de confiança no sistema
financeiro. Com a evolução do ecossistema de criptoativos, esse desafio ganhou novas camadas de complexidade e, ao mesmo tempo, novas oportunidades.
Se antes o foco estava restrito às instituições financeiras tradicionais, hoje o debate se amplia para incluir exchanges, provedores de serviços de ativos virtuais (PSAVs) e toda a infraestrutura que sustenta esse novo mercado.
Do tradicional ao digital: a base continua a mesma
No sistema financeiro tradicional, o monitoramento de PLD/FT é estruturado a partir de três pilares principais: Conheça seu Cliente (KYC), monitoramento de transações e reporte de operações suspeitas.
Esses elementos permanecem essencialmente os mesmos no universo cripto. No entanto, a forma como são aplicados muda significativamente.
Enquanto instituições tradicionais analisam transações baseadas em contas bancárias e relações diretas com clientes, no mundo cripto há um fator adicional quese refere a transparência da blockchain combinada com a pseudonimidade dos usuários. Isso cria um cenário curioso e, ao mesmo tempo, mais transparente e mais desafiador.
O monitoramento no mercado cripto: uma nova lógica operacional
Empresas de criptoativos precisam lidar com uma realidade híbrida: entradas e saídas de recursos em moeda fiduciária, via sistema financeiro tradicional, e movimentações on-chain, muitas vezes globais, instantâneas e irreversíveis.
Nesse contexto, o monitoramento deixa de ser apenas reativo e passa a ser altamente analítico e preventivo. Ferramentas especializadas permitem:
Rastrear a origem de criptoativos
Identificar vínculos com carteiras associadas a atividades ilícitas
Classificar riscos por tipo de transação ou contraparte
Detectar padrões atípicos em tempo quase real
Esse nível de visibilidade simplesmente não existe no sistema tradicional da mesma forma.
Tecnologia como aliada: o papel das soluções especializadas
O avanço do mercado trouxe o desenvolvimento de soluções específicas para análise de blockchain. Ferramentas como Chainalysis, Elliptic e Merckle Science se tornaram referências globais nesse segmento, permitindo que empresas avaliem o risco de carteiras digitais antes de processar transações, monitorem fluxos financeiros ao longo de múltiplos endereços e identifiquem conexões com atividades como fraudes, ransomware ou sanções internacionais.
Mais do que uma exigência regulatória, essas ferramentas atuam diretamente na proteção do cliente, reduzindo a exposição a fraudes e a utilização indevida da plataforma.
Caso prático: prevenção de fraudes e proteção ao usuário
Um dos principais casos de uso dessas tecnologias está na identificação de golpes envolvendo engenharia social como o chamado pig butchering, em que vítimas são manipuladas ao longo de semanas ou meses a transferir ecursos para carteiras controladas por agentes maliciosos.
Em um ambiente sem monitoramento robusto, essas transações seguiriam sem qualquer barreira. Com ferramentas de análise on-chain, é possível:
Identificar que a carteira de destino já está associada a atividades suspeitas
Bloquear ou sinalizar a transação antes da execução
Acionar processos internos de investigação e suporte ao cliente
Esse tipo de abordagem não apenas reduz perdas financeiras, como também fortalece a confiança no ecossistema.
Convergência regulatória e padronização do mercado
A evolução regulatória, tanto no Brasil quanto globalmente, vem aproximando cada vez mais os requisitos aplicáveis a instituições tradicionais e empresas de cripto. No cenário brasileiro, normas como a Circular BCB nº 3.978/2020, que trata especificamente do monitoramento, seleção e comunicação de operações atípicas ao COAF, e a Resolução BCB nº 6/2023 reforçam a necessidade de monitoramento contínuo, a adoção de abordagens baseadas em risco e a implementação de controles compatíveis com o porte e a complexidade de cada instituição.
Além disso, a Travel Rule, regra que exige o compartilhamento de informações sobre remetente e destinatário em transferências de criptoativos entre as PSAVs, amplia significativamente a rastreabilidade das transações, trazendo o mercado cripto para um padrão mais alinhado ao sistema financeiro tradicional e às recomendações do GAFI (Grupo de Ação Financeira Internacional).
Na prática, isso significa que o setor caminha para um cenário mais padronizado, transparente e institucionalizado.
Desafios e próximos passos
Apesar dos avanços, ainda existem desafios relevantes:
Integração entre dados on-chain e off-chain
Equilíbrio entre privacidade e prevenção a crimes financeiros
Adaptação de pequenas e médias empresas às exigências regulatórias
Evolução constante das tipologias de fraude
Por outro lado, a própria natureza tecnológica do setor permite uma capacidade de resposta mais ágil; algo que tende a acelerar a maturidade do mercado.
O monitoramento de PLD/FT no mercado de criptoativos não representa uma ruptura com o sistema tradicional, mas sim uma evolução. Ao combinar fundamentos já consolidados com novas tecnologias e maior capacidade analítica, o setor cria condições para um ambiente mais seguro, transparente e confiável.
Nesse contexto, empresas que investem em governança, tecnologia e controles robustos não apenas atendem às exigências regulatórias, elas se posicionam estrategicamente em um mercado que, cada vez mais, valoriza a confiança como ativo central. E para quem atua no dia a dia do compliance cripto no Brasil, esse movimento já é visível e irreversível.



