Monitoramento de PLD/FT no mercado financeiro e cripto: convergência, desafios e evolução tecnológica

Artigo de opinião, Manuel Bermejo Fletes, Head de Compliance da Crypto.com

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Leitura de 4 min-18/05/2026, 07:30
Categorias: Tecnologia
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Nos últimos anos, o monitoramento de prevenção à lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo (PLD/FT) deixou de ser apenas uma obrigação regulatória para se tornar um dos principais pilares de confiança no sistema

financeiro. Com a evolução do ecossistema de criptoativos, esse desafio ganhou novas camadas de complexidade e, ao mesmo tempo, novas oportunidades.

Se antes o foco estava restrito às instituições financeiras tradicionais, hoje o debate se amplia para incluir exchanges, provedores de serviços de ativos virtuais (PSAVs) e toda a infraestrutura que sustenta esse novo mercado.

Do tradicional ao digital: a base continua a mesma

No sistema financeiro tradicional, o monitoramento de PLD/FT é estruturado a partir de três pilares principais: Conheça seu Cliente (KYC), monitoramento de transações e reporte de operações suspeitas.

Esses elementos permanecem essencialmente os mesmos no universo cripto. No entanto, a forma como são aplicados muda significativamente.

Enquanto instituições tradicionais analisam transações baseadas em contas bancárias e relações diretas com clientes, no mundo cripto há um fator adicional quese refere a transparência da blockchain combinada com a pseudonimidade dos usuários. Isso cria um cenário curioso e, ao mesmo tempo, mais transparente e mais desafiador.

O monitoramento no mercado cripto: uma nova lógica operacional

Empresas de criptoativos precisam lidar com uma realidade híbrida: entradas e saídas de recursos em moeda fiduciária, via sistema financeiro tradicional, e movimentações on-chain, muitas vezes globais, instantâneas e irreversíveis.

Nesse contexto, o monitoramento deixa de ser apenas reativo e passa a ser altamente analítico e preventivo. Ferramentas especializadas permitem:

  • Rastrear a origem de criptoativos

  • Identificar vínculos com carteiras associadas a atividades ilícitas

  • Classificar riscos por tipo de transação ou contraparte

  • Detectar padrões atípicos em tempo quase real

Esse nível de visibilidade simplesmente não existe no sistema tradicional da mesma forma.

Tecnologia como aliada: o papel das soluções especializadas

O avanço do mercado trouxe o desenvolvimento de soluções específicas para análise de blockchain. Ferramentas como Chainalysis, Elliptic e Merckle Science se tornaram referências globais nesse segmento, permitindo que empresas avaliem o risco de carteiras digitais antes de processar transações, monitorem fluxos financeiros ao longo de múltiplos endereços e identifiquem conexões com atividades como fraudes, ransomware ou sanções internacionais.

Mais do que uma exigência regulatória, essas ferramentas atuam diretamente na proteção do cliente, reduzindo a exposição a fraudes e a utilização indevida da plataforma.

Caso prático: prevenção de fraudes e proteção ao usuário

Um dos principais casos de uso dessas tecnologias está na identificação de golpes envolvendo engenharia social como o chamado pig butchering, em que vítimas são manipuladas ao longo de semanas ou meses a transferir ecursos para carteiras controladas por agentes maliciosos.

Em um ambiente sem monitoramento robusto, essas transações seguiriam sem qualquer barreira. Com ferramentas de análise on-chain, é possível:

  • Identificar que a carteira de destino já está associada a atividades suspeitas

  • Bloquear ou sinalizar a transação antes da execução

  • Acionar processos internos de investigação e suporte ao cliente

Esse tipo de abordagem não apenas reduz perdas financeiras, como também fortalece a confiança no ecossistema.

Convergência regulatória e padronização do mercado

A evolução regulatória, tanto no Brasil quanto globalmente, vem aproximando cada vez mais os requisitos aplicáveis a instituições tradicionais e empresas de cripto. No cenário brasileiro, normas como a Circular BCB nº 3.978/2020, que trata especificamente do monitoramento, seleção e comunicação de operações atípicas ao COAF, e a Resolução BCB nº 6/2023 reforçam a necessidade de monitoramento contínuo, a adoção de abordagens baseadas em risco e a implementação de controles compatíveis com o porte e a complexidade de cada instituição.

Além disso, a Travel Rule, regra que exige o compartilhamento de informações sobre remetente e destinatário em transferências de criptoativos entre as PSAVs, amplia significativamente a rastreabilidade das transações, trazendo o mercado cripto para um padrão mais alinhado ao sistema financeiro tradicional e às recomendações do GAFI (Grupo de Ação Financeira Internacional).

Na prática, isso significa que o setor caminha para um cenário mais padronizado, transparente e institucionalizado.

Desafios e próximos passos

Apesar dos avanços, ainda existem desafios relevantes:

  • Integração entre dados on-chain e off-chain

  • Equilíbrio entre privacidade e prevenção a crimes financeiros

  • Adaptação de pequenas e médias empresas às exigências regulatórias

  • Evolução constante das tipologias de fraude

Por outro lado, a própria natureza tecnológica do setor permite uma capacidade de resposta mais ágil; algo que tende a acelerar a maturidade do mercado.

O monitoramento de PLD/FT no mercado de criptoativos não representa uma ruptura com o sistema tradicional, mas sim uma evolução. Ao combinar fundamentos já consolidados com novas tecnologias e maior capacidade analítica, o setor cria condições para um ambiente mais seguro, transparente e confiável.

Nesse contexto, empresas que investem em governança, tecnologia e controles robustos não apenas atendem às exigências regulatórias, elas se posicionam estrategicamente em um mercado que, cada vez mais, valoriza a confiança como ativo central. E para quem atua no dia a dia do compliance cripto no Brasil, esse movimento já é visível e irreversível.

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Manuel Bermejo Fletes

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Formado em Administração de Empresas, com MBA em Gestão Estratégica de Negócios e Especialização em Compliance como ferramenta de Gestão pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Profissional com mais de oito anos de experiência na área financeira, gerenciando equipes e projetos em instituições nacionais e internacionais.