Layer 1 e Layer 2: a base da escalabilidade

Como as camadas da blockchain se complementam para sustentar crescimento, segurança e inovação, em um cenário regulatório que avança no Brasil

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Leitura de 8 min-21/11/2025, 00:00
Categorias: Tecnologia
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O crescimento das blockchains trouxe à tona um dilema central: como permitir que milhões de usuários, aplicações e transações coexistam sem comprometer segurança, eficiência e descentralização? Esse desafio — conhecido como o “trilema da escalabilidade” — impulsionou o desenvolvimento de duas abordagens estruturais que moldaram o ecossistema cripto moderno: as soluções de Layer 1 (L1) e Layer 2 (L2).

As L1 representam a base da blockchain, onde regras, consensos e transações são processados. Já as L2 surgem como camadas complementares que assumem parte da demanda computacional, preservando a segurança da rede principal enquanto aumentam velocidade e reduzem custos.

Com a evolução regulatória no Brasil, compreender essa arquitetura tornou-se fundamental para empresas, instituições financeiras, desenvolvedores e investidores que lidam com criptoativos em escala profissional.

O que é Layer 1

Layer 1 é a camada central de uma blockchain. É nela que estão definidos o mecanismo de consenso, a estrutura de blocos, o registro das transações e todos os elementos que determinam como a rede funciona.

Exemplos clássicos de L1 incluem:

  • Bitcoin, baseado em Proof of Work (PoW) — mecanismo de consenso em que mineradores usam poder computacional para validar blocos e proteger a rede.

  • Ethereum, que migrou para Proof of Stake (PoS) — um mecanismo de consenso em que usuários bloqueiam seus tokens para participar da validação de blocos.

  • Solana, estruturada para alta performance em uma única cadeia.

  • Avalanche, com arquitetura multichain para paralelizar execuções.

Por serem a fundação, as L1 enfrentam um limite natural: conforme aumentam os usuários e transações, crescem também o congestionamento e as taxas. Por isso, diferentes técnicas de escalabilidade foram adotadas ao longo dos anos:

  • Mudança de consenso, como a transição do Ethereum para PoS.

  • Sharding, que divide o processamento da rede em fragmentos paralelos.

  • Otimizações de blocos, como compressão de dados e melhorias na capacidade de processamento da rede.

Essas mudanças, no entanto, exigem coordenação global entre validadores e alterações profundas no protocolo — o que as torna mais lentas e complexas de implementar.

O que é Layer 2

Layer 2 são soluções construídas sobre uma blockchain principal para aumentar sua capacidade operacional sem alterar o funcionamento interno da camada base. Em termos práticos, a L2 processa parte das transações “fora” da blockchain principal e envia para a L1 apenas o estado final ou provas criptográficas do que ocorreu.

As abordagens mais utilizadas incluem:

  • Rollups, que agregam milhares de transações antes de registrar uma única prova na L1.

  • Canais de pagamento, como Lightning Network, que permitem transações instantâneas fora da cadeia.

  • Sidechains, que funcionam como cadeias paralelas interoperáveis.

  • Validiums, que armazenam dados fora da cadeia preservando verificações criptográficas.

Os rollups se tornaram o padrão dominante no ecossistema Ethereum, especialmente os zk-rollups, que usam provas de conhecimento zero (ZKPs) para validar transações de forma compacta e extremamente segura.

Entre os principais benefícios das L2 estão:

  • Escalabilidade: aumento significativo de capacidade transacional.

  • Taxas mais baixas: custos diluídos entre milhares de operações.

  • Velocidade: confirmações mais rápidas e maior capacidade de uso real.

  • Segurança herdada da L1, que valida o estado final.

Mas também existem desafios:

  • Dependência da L1, que ainda é responsável pela liquidação final.

  • Complexidade técnica, especialmente em rollups baseados em ZKPs.

  • Interoperabilidade, que exige pontes seguras entre diferentes camadas.

Como L1 e L2 se complementam

A indústria descobriu, na prática, que escalabilidade não é alcançada apenas com mudanças na camada base ou apenas com soluções complementares. O futuro da blockchain é multicamadas.

A L1 é responsável por:

  • manter o consenso

  • garantir segurança

  • registrar transações de forma imutável.

A L2 assume:

  • execução de alta performance

  • redução de custos

  • experiências mais fluídas para usuários e aplicações.

Essa combinação é uma resposta direta ao trilema da escalabilidade: enquanto a L1 prioriza segurança e descentralização, a L2 permite que a rede seja realmente escalável.

Os efeitos práticos aparecem em diversos setores:

  • DeFi, que depende da segurança da L1 e da eficiência das L2 para operar volumes elevados.

  • Jogos blockchain, que precisam de milhares de operações por minuto com baixíssimo custo.

  • Micropagamentos, viabilizados por redes como Lightning Network.

  • Tokenização, onde o custo operacional faz diferença na adoção institucional.

A arquitetura modular — com consenso, execução e armazenamento separados — deve dominar a próxima fase de evolução das blockchains.

Implicações regulatórias e o contexto brasileiro

As camadas L1 e L2 também têm impacto direto no ambiente regulatório, especialmente em um país como o Brasil, onde a estrutura legal para criptoativos está em rápida evolução.

Com a Lei 14.478/2022 e as normas subsequentes, Banco Central e CVM passaram a observar com atenção aspectos como:

  • governança tecnológica

  • custódia e controle de chaves

  • segregação de funções entre plataformas

  • riscos operacionais de infraestruturas externas

  • interoperabilidade e rastreabilidade das transações.

A CVM também tem analisado casos de tokens emitidos em L2 mas lastreados em L1, especialmente em temas ligados a:

  • direitos de investidores

  • governança da cadeia que hospeda o token

  • funcionamento e riscos de contratos inteligentes

  • compliance com regras de valores mobiliários.

Para exchanges, custodiantes, fintechs e emissores de tokens, entender a arquitetura multicamadas não é algo opcional — é fundamental para adequação às normas brasileiras.

Tendências futuras e avanços tecnológicos

A próxima geração de infraestruturas blockchain já aponta para arquiteturas modulares e multicamadas. Entre as tendências:

  • Rollups cada vez mais avançados, com zk-SNARKs e zk-STARKs como padrões de prova.

  • Execução descentralizada fora da L1, com liquidação em camadas principais robustas.

  • Cadeias soberanas, que utilizam L1 consolidadas como camada de segurança.

  • Integração institucional, impulsionada por tokenização e normas de ativos virtuais.

A modularidade permitirá blockchains especializadas em consenso, outras em execução e outras em armazenamento, criando ecossistemas altamente interoperáveis. Para o Brasil, que avança em tokenização e infraestrutura financeira digital, essa arquitetura deve impulsionar novos modelos de negócio e aumentar a eficiência regulatória.

As estruturas de Layer 1 e Layer 2 representam muito mais do que soluções técnicas. Elas moldam a forma como transações são registradas, como aplicações são escaladas e como o mercado cripto se integra a sistemas financeiros tradicionais. A combinação dessas camadas é hoje o caminho mais sólido para conciliar segurança, descentralização e desempenho.

No Brasil, a evolução regulatória liderada pelo Banco Central e pela CVM e ao interesse institucional por tokenização, reforça que a compreensão dessas camadas é um requisito essencial para quem atua no setor.

A ABcripto continuará contribuindo para esse diálogo, promovendo informação qualificada, debates técnicos e educação que ajudem a construir um mercado mais seguro, transparente e competitivo.

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